XVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM DO ANO B

 

Domingo, 05 de Agosto de 2012

Texto: Jo 6,24-35

O evangelho do domingo anterior falou da multiplicação dos pães para
saciar cinco mil pessoas. É evidente que o interesse do evangelista
não está centrado no ato em si e sim no seu significado. Na mente do
evangelista o milagre de multiplicação deve ser considerado como sinal
que aponta para Outro Pão que pode saciar toda a humanidade. Este pão
é o próprio Jesus Cristo daquilo que o evangelho deste domingo fala. A
partir do evangelho deste domingo começa-se a falar do discurso sobre
o Pão da Vida que é Jesus Cristo. O discurso sobre o Pão da Vida
certamente parte da multiplicação dos pães.

Para entender a seqüência lógica do texto, podemos dividi-lo em três
partes. A primeira parte(vv.24-25) faz uma ligação entre os relatos da
multiplicação dos pães(vv.1-15)e da caminhada de Jesus sobre as
águas(vv16-21), com o discurso sobre o Pão da Vida. A pergunta da
multidão a Jesus no v. 25 serve de ponte para a segunda parte do
texto(vv.26-30). E a terceira parte(vv.31-35) é central para a
compreensão da mensagem do discurso.

Terminada a multiplicação dos pães, Jesus despediu a multidão, que
queria proclamá-lo rei, e retirou-se para a montanha para orar(Jo
6,14-15). Mas o entusiasmo popular pelo milagre dos pães não se apagou
facilmente. Os que tinham comido os pães abundantemente partiram para
buscar Jesus, desejosos de continuar naquela situação de êxodo que
lhes assegurava o sustento sem esforço próprio. Mas Deus nunca concede
suas graças para estimular a preguiça dos homens. O homem tem que
fazer uso dos dons de Deus e pede que esteja sempre em sintonia com a
vontade do Doador destes dons.

Ao encontrar Jesus no dia seguinte em Cafarnaum(v.22), a multidão
saciada pelo pão pergunta-lhe: ”Rabi, quando chegaste aqui?”(v.25).
Nicodemos se dirigiu a Jesus com o mesmo título “Rabi”(Jo 3,2). O
título reflete uma atitude geral com respeito a Jesus como mestre.
Jesus não responde à pergunta. Em vez disto, ele começa por comentar o
sinal da multiplicação para revelar o seu significado. Em tom solene
Jesus lhe diz: “Em verdade, em verdade vos digo, vós me procurais não
porque vistes sinais, mas porque comestes pão até vos
saciardes”(v.26). Jesus sofre a incompreensão da multidão, em cujo
benefício operou grandes obras. Jesus sabe que a multidão O procura
não para escutar mais suas palavras, nem para penetrar mais a fundo na
sua mensagem, e nem para ser ajudada a compreender os gestos que Jesus
realizou, mas porque comeu pão em abundância gratuitamente e espera
continuar tendo o pão garantido sem mais precisar trabalhar. Ao
procurar Jesus, a multidão queria um deus de uso e consumo, um deus
que sirva seus interesses e necessidades, um deus comercial que
oferece e distribui os seus dons ao capricho do pedido. Aparentemente
a multidão está procurando Jesus, mas que, na verdade, não passa da
busca de si mesma que pretende colocar Jesus e o milagre a serviço do
interesse próprio. Este é o deus de uma fé supersticiosa que quer
encerrar Deus nos limites dos ritos e das leis cultuais, que procura
servir-se de Deus em vez de servi-Lo e adorá-Lo. A multidão não entrou
no âmago do sinal que é um convite para a fraternidade, para a
participação, para a partilha e para a renúncia a possuir e guardar
para si para depois começar a partilhar o que tem para os outros,
especialmente aos necessitados. O que a multidão devia ter levado a
entregar-se aos outros, como Jesus se entregou a ela, a centrou
egoisticamente em sua própria fartura.

Apesar disto, Jesus vê nessa procura do pão material uma oportunidade
para proclamar uma norma superior: “Trabalhai, não pelo alimento que
se perde, mas pelo alimento que permanece para a vida eterna, alimento
que o Filho do Homem vos dará, pois Deus, o Pai, o marcou com seu
selo”(v.27). Segundo Jesus, este é o ponto central do problema, pois
trata-se da proposta profunda e nova. Jesus é aquele que foi firmado
com o selo de Deus, isto é, que Deus indicou Jesus como seu
representante autêntico e autorizado para dar o alimento que dá vida.
O pão transitório mantém a nossa existência terrena. Mas é
indispensável o pão que nos proporciona o Autor da vida que quer
plenificar a nossa existência. Ao receber este pão que não se esgota,
participamos na dimensão eterna da vida, pois participamos da mesma
vida daquele que pode nos conceder o alimento permanente, o que dá a
vida eterna, o alimento que não se acaba.

O alimento que não se acaba é a partilha, pois partilhando sobraram
doze cestos cheios(Jo 6,13), isto é, o suficiente para todos sem
distinção nenhuma. Jesus quer que os seus seguidores compreendam que
Jesus não veio com uma vara mágica para transformar as pedras em pães
de abundância, mas para ensinar que o amor fraterno, que o pão
repartido, que a partilha sempre produzem pão em abundância. A
multidão precisa entender que aquilo que é solução humana não precisa
esperar de Deus, pois o próprio Deus já deu-lhe essa capacidade. O que
precisa ser evitado é que não haja a fome e a miséria, pois não pode
haver fome ou miséria sem que haja o pecado. A fome, a miséria e a
injustiça são irmãs e quem as pratica não está com Deus e seu reino. O
pão que comermos, fruto da injustiça e da exploração do irmão não é
pão abençoado por Deus. Este tipo de pão nutre, mas não alimenta a
vida humana. Mestre Eckhart disse: “Quem não dá ao outro o que é do
outro, não come o seu próprio pão, mas come o seu e também aquele do
outro”. Assim o pão se torna amargo pois dentro dele contém muitas
lágrimas.

Diante da afirmação de Jesus sobre a importância do alimento que
permanece para a vida eterna, a multidão lhe pergunta: “Que devemos
fazer para realizar as obras de Deus?”. A multidão entendeu
erradamente o termo “trabalhai” no v. 27. Por isso, logo pergunta
sobre as “obras” que Deus exige do homem. Deus não pede “obras”: “A
obra de Deus é que acrediteis naquele que ele enviou”(vv.28-29). A
única obra que Deus exige do homem é a fé no seu enviado. Mas o que
quer dizer acreditar naquele que Deus enviou? Não basta saber que
Jesus existiu, que pregou o amor, que ensinou normas sublimes de vida.
Acreditar em Jesus significa unir a própria vida com a vida dele na
doação de si aos irmãos. Jesus é o amor que se doa. Quem se achega a
ele não o faz para preencher a si próprio, mas para aprender a doar-se
e a amar. Não há amor sem dom de si mesmo e não há dom de si sem real
comunicação de bens.

Diante da resposta de Jesus, a multidão se fecha e exige também
“sinal” para provar que Jesus é o enviado do Pai: “Que sinal fazes tu
para que acreditemos em ti? Que obra fazes? Nossos pais comeram o maná
no deserto, como está escrito: ‘Pão do céu deu-lhes de comer’”(vv.
30-31). Parece a multidão ter esquecido o grande “sinal” da
multiplicação dos pães. O maná avalizou Moisés diante do povo como
profeta enviado por Deus. Mas o maná não caiu do céu, por isso não
podia ser o pão da vida. Quem comeu o maná morreu. O verdadeiro pão do
céu é aquele que desce do céu e dá a vida ao mundo(vv.32-33).

O maná, alimento que perece, aponta para o outro superior e mais
completo: pão da vida com referência a Cristo: “Em verdade, em verdade
vos digo: não foi Moisés quem vos deu o pão do céu, mas é meu Pai que
vos dá o verdadeiro pão do céu; porque o pão de Deus é aquele que
desce do céu e dá vida ao mundo”(vv.32-33). Mas a multidão interpretou
o pão de que Jesus fala materialmente, como a samaritana a respeito da
água viva(Jo 4,14): “Senhor dá-nos sempre deste pão”(v.34). Mas este
pedido propicia a grande auto-revelação da pessoa de Jesus onde ele se
identifica com o pão em questão: “Eu sou o Pão da Vida. Quem vem a
mim, nunca mais terá fome, e o que crê em mim nunca mais terá
sede”(v.35). Este versículo representa o ápice do discurso. Todo o
discurso tende para esta revelação final: “Eu sou o pão da vida”. A
expressão “Eu sou” é a fórmula com que Deus se revelou no AT(Ex 3,14).
Nesta auto-revelação, Jesus se manifesta como a resposta às
necessidades e esperanças do homem. Para que seja assim, a única
condição que se exige do homem é a fé. Jesus é o pão da vida que, tal
como a água viva, satisfaz para sempre a fome e a sede do que crê
nele. Cristo é a vida imortal prometida ao homem desde o princípio e à
qual agora pode ter acesso através da fé nele. Quem se alimenta de
Cristo vive para sempre.

P. Vitus Gustama,svd

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